Como um Jogo de 15 GB Consegue Criar um Universo Infinito?

Como um Jogo de 15 GB Consegue Criar um Universo Infinito hangar 404 games

Quando falamos em jogos gigantescos, normalmente pensamos em downloads enormes, que ocupam dezenas ou até centenas de gigabytes. Mas existe um caso que desafia completamente essa lógica: No Man’s Sky.

Como é possível um jogo relativamente leve criar um universo com mais de 18 quintilhões de planetas? Como ele consegue gerar sistemas estelares inteiros, criaturas exóticas, climas extremos e paisagens únicas sem ocupar um espaço absurdo no seu HD?

A resposta está em uma das tecnologias mais fascinantes da indústria dos games: geração procedural.

Neste artigo, você vai entender como essa tecnologia funciona, como os chamados seeds garantem consistência no universo e como algoritmos matemáticos conseguem transformar números em montanhas, oceanos e formas de vida alienígenas.

O Que É Geração Procedural?

A geração procedural é uma técnica onde o jogo não armazena o conteúdo pronto, mas sim as regras para criá-lo. Em vez de salvar cada planeta modelado manualmente, o jogo guarda:

  • Algoritmos
  • Regras matemáticas
  • Seeds (chaves numéricas)

Quando você chega a um planeta, ele não estava “esperando” ali pronto. O que acontece é que o jogo usa essas regras para gerar tudo em tempo real.

Isso significa que o planeta é construído na sua máquina no momento da exploração. Essa abordagem traz duas vantagens enormes:

  1. Economia de espaço de armazenamento
  2. Escala praticamente ilimitada

E o mais interessante: isso não é aleatoriedade pura. É o que chamamos de pseudoaleatoriedade determinística.

Os Três Pilares da Geração Procedural

Para entender como isso funciona na prática, precisamos falar sobre três pilares fundamentais.

  • Algoritmos: São responsáveis por tomar decisões como onde há montanhas, onde surgem oceanos e como o relevo se distribui
  • Regras Matemáticas: Definem limites e coerência como por exemplo, um planeta gelado não terá vegetação tropical, um mundo radioativo terá cores e efeitos compatíveis com essa hostilidade e montanhas possuem altura máxima definida.
  • Seeds: Aqui está o verdadeiro segredo.

O Que São Seeds?

Os seeds são números gigantescos que funcionam como o “DNA” de um planeta. Cada sistema estelar e cada planeta possui um seed único. A partir dele, o jogo calcula:

  • Tipo de estrela
  • Número de planetas
  • Órbita
  • Clima
  • Gravidade
  • Biomas
  • Flora e fauna

E aqui entra um conceito técnico importante: determinismo. No caso de No Man’s Sky, a geração procedural é determinística. Isso significa que: O mesmo seed sempre gera exatamente o mesmo planeta.

Não importa se você está no PC, console, online ou offline. Se o seed for o mesmo, o planeta será idêntico. Isso permite que dois jogadores, em lugares diferentes do mundo, encontrem o mesmo planeta com as mesmas características — mesmo que ele nunca tenha sido visitado antes.

A Analogia da Receita de Bolo

Pense assim: O jogo não salva o bolo pronto. Ele salva a receita.

Sempre que alguém chega ao planeta, o jogo “assa o bolo” novamente com base naquela receita (seed + regras).

O resultado? O mesmo planeta, sempre. Essa lógica é o que permite que o universo seja praticamente infinito sem exigir espaço impossível de

Como Números Viram Montanhas?

Agora entra a parte mais técnica — e mais impressionante. Para transformar seeds em terreno real, o jogo usa funções matemáticas chamadas noise functions (funções de ruído), como o Perlin Noise.

Essas funções geram valores que parecem aleatórios, mas são suaves e naturais. Funciona mais ou menos assim:

  • Valor alto → Montanha
  • Valor médio → Planície
  • Valor baixo → Vale ou oceano

Mas não é só uma camada de ruído. São várias camadas empilhadas:

  • Uma define o formato geral do planeta
  • Outra cria continentes
  • Outra adiciona montanhas
  • Outra simula erosão

Essa combinação evita que o mundo pareça artificial ou repetitivo.

Como os Biomas São Definidos?

Depois do terreno, o jogo determina o tipo de planeta com base em:

  • Distância da estrela
  • Temperatura média
  • Radiação
  • Toxicidade atmosférica

Assim surgem planetas:

  • Gelados
  • Desérticos
  • Radioativos
  • Tóxicos
  • Paradisíacos

Nada é totalmente aleatório. Tudo acontece dentro de limites definidos para manter coerência. Um planeta extremamente radioativo não terá céu azul vibrante e vegetação tropical exuberante. A lógica interna garante consistência.

Como as Criaturas São Criadas?

Aqui entra outra solução inteligente: combinação modular. O jogo não cria cada criatura do zero. Ele possui:

  • Tipos de cabeça
  • Formatos de corpo
  • Pernas
  • Asas
  • Caudas
  • Texturas
  • Cores

Essas partes são combinadas como um grande quebra-cabeça. Depois disso, o sistema ajusta:

  • Tamanho
  • Proporção
  • Sons
  • Movimento

O bioma influencia diretamente a forma de vida. Criaturas de mundos gelados tendem a ser robustas. Planetas tóxicos geram formas mais estranhas.

O resultado é aquele efeito clássico do No Man’s Sky: algumas criaturas parecem saídas de um pesadelo, outras são curiosamente fofas.

Por Que 18 Quintilhões de Planetas?

Esse número virou quase um meme na indústria. Mas ele é possível porque:

  • O jogo não salva planetas individualmente.
  • Ele salva apenas regras e seeds.
  • Os planetas só “existem” quando alguém chega.

Se todos os planetas fossem armazenados como arquivos individuais, o jogo teria tamanho impossível. Mas como tudo é reconstruído matematicamente sob demanda, o espaço necessário é mínimo comparado à escala criada.

Os Limites da Geração Procedural

Nem tudo são vantagens. A geração procedural enfrenta desafios importantes:

Começamos pela repetição de padrões. O cérebro humano reconhece padrões rapidamente.
Depois de muitas horas, você começa a perceber semelhanças.

Depois vem a falta de narrativa profunda. Conteúdo gerado por algoritmo não possui intenção dramática.
Ele não cria histórias complexas sozinho.

Foi por isso que a desenvolvedora do jogo, a Hello Games, passou a combinar geração procedural com conteúdo artesanal. Com o tempo, o jogo recebeu:

  • Estruturas feitas manualmente
  • Missões guiadas
  • Eventos narrativos
  • Melhorias nos algoritmos

O procedural continuou sendo a base, mas passou a ter curadoria humana. E esse equilíbrio entre matemática e criatividade é o que transformou o jogo em um verdadeiro caso de sucesso.

O Futuro da Geração Procedural

A geração procedural não é exclusividade de um único jogo. Títulos como Minecraft, Diablo e Dwarf Fortress também utilizam essa tecnologia em diferentes níveis. Mas poucos levaram o conceito a uma escala tão ambiciosa quanto No Man’s Sky.

O mais interessante é perceber que o futuro dos jogos provavelmente não será totalmente artesanal nem totalmente procedural. Será híbrido. Algoritmos criando escala e seres humanos criando significado.

Um jogo de 15 GB consegue criar um universo praticamente infinito porque ele não armazena o universo. Ele armazena as regras para criá-lo. Seeds funcionam como DNA. Algoritmos funcionam como arquitetos. Funções matemáticas transformam números em montanhas e combinações modulares criam criaturas alienígenas.

E tudo isso acontece em tempo real, no momento em que você decide explorar. No fim das contas, o verdadeiro universo do jogo não está salvo no seu HD. Ele está escondido em equações matemáticas esperando para ser calculado. E talvez essa seja a parte mais impressionante de todas.

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